Desço as escadas
correndo, segurando as lágrimas. A porta se fecha atrás de mim em um som
abafado. Eu não passei no teste. Ainda vejo o júri olhando nos meus olhos e
depois para minha concorrente, e por fim a escolhendo em vez de mim. Eu não
passei no teste. Ela tinha muito mais corpo que eu, era muito mais bonita, os
seus movimentos muito mais delicados do que os meus... Eu não passei no teste.
Eu pulei o mais alto que pude, rodopiei no ar o máximo que conseguia, e caí nas
pontas dos pés como desde pequena aprendi a fazer. Mas, ainda assim, eu não
passei no teste. Não foi o suficiente. Cheguei até aqui para nada.
— Você consegue, tia Ju!
— foi o que Jacque me disse, a garotinha mais linda da minha turma. Ela olhara
para os seus colegas de classe, perguntando se eles não concordavam com ela
também. E todos concordaram, com um aceno de cabeça: — É, você consegue, tia
Ju!
Nunca havia me sentido tão
feliz... Mas agora, o que direi aos meus
alunos? Como poderei entrar naquela sala outra vez, sabendo que eu os
decepcionei?
Começo a andar pelas ruas
de Petrópolis, sob o céu nebuloso que se forma para mim, a caminho do
restaurante em que almoço sempre que termino de dar aula. O prato que peço fica
em minha frente, mas eu não toco nele, porque, apesar de estar muitas horas sem
comer, acabo de perceber de que não estou com a mínima fome. Então vou ao toalhete
lavar o rosto, antes que eu comece a chorar. Olho para o espelho e uma garota
de cabelos ruivos me encara, e seus olhos me dizem que não há mais jeito, que
sou uma fracassada na vida e que não há nada que eu possa fazer para mudar
isso.
Lembro-me das inúmeras
cartas de meus pais amontoadas no chão da sala, pedindo para que eu volte para
casa... Eles sempre disseram que isso era bobagem. O pior de tudo é ter de
concordar com eles agora.
— Ah, me desculpe.
Olho para o lado de onde
vem a voz. Um homem de terno acabou de entrar no banheiro. Ele fica parado na
porta, olhando para mim, como se não esperasse me encontrar.
— Aqui é o banheiro
feminino — eu digo.
— É, eu sei. — ele
concorda rapidamente, o que acho muito estranho. — Desculpa, achei que não
teria ninguém aqui, não vi você entrando... é que... eu só queria me esconder.
Eu passo a manga da blusa
no rosto, para enxugar minhas lágrimas.
— E achou que o banheiro
feminino seria o lugar ideal — deduzo.
— Exatamente — ele sorri.
— Não sei por que, mas acho que meus amigos não me procurarão aqui... Será que
eu posso...? — ele aponta para um dos boxes.
— Ah, claro — eu digo,
enquanto ele entra em um deles e fecha a porta. — Eu já estou de saída.
— Tudo bem. Só acho que
antes deveria arrumar o seu rosto. Está todo borrado de maquiagem.
Então olho-me no espelho
outra vez.
— Ah, droga! Obrigada.
Por alguns segundos tudo
fica quieto, enquanto começo a tirar toda maquiagem do meu rosto. Então o
silêncio de repente é quebrado quando ele pergunta o meu nome. Não faço nada
além de rir.
— O que foi? — ele diz.
— Você não entrou aqui só
para saber o meu nome, não é? — pergunto, porque acho que essa seria uma
história bem mais plausível.
— Por que acha isso?
— Porque é estranho.
— Então não vai me dizer
o seu nome? — ele insiste.
Percebo que não tenho
nada a perder se disser o meu nome a ele, então:
— Juliana.
— Muito prazer, Juliana.
Sou Roberto. Não foi tão difícil assim, foi?
— Não... — digo,
sorrindo.
Terminando de limpar o
meu rosto, descubro o quanto que é estranho estar no banheiro sabendo que há um
homem (o qual você nunca viu na vida) com você lá.
— Mas então... Por que
você está aqui mesmo? — Pergunto, porque o silêncio é muito constrangedor.
— Meus amigos... Eles não
levam a sério o que eu faço.
— E o que você faz?
— Sou escritor. Escrevo
em uma coluna do Jornal Estadão.
— Nossa, que bacana.
— É, só que não é o que
quero. Nem ao menos meus amigos leem minha coluna! Eu quero ser um escritor
reconhecido, sabe... Na verdade, eu moro em São Paulo, vim para cá a procura de
uma história... Eu estava falando com eles sobre isso quando começaram a fazer
várias piadinhas, como “nem só da escrita vive o homem”. Tipo, o que tem de
errado de eu querer apenas fazer isso da vida? O que há de errado se eu
acreditar que posso realizar esse sonho? Só porque eu fracassei umas três ou
quatro vezes não quer dizer que eu não vá conseguir... Mas parece que ninguém
entende.
E quando menos espero, lá
estou eu chorando novamente.
— Juliana?
Só que dessa vez é para
valer. Lágrimas grossas escorrem pelo meu roso e eu fico de joelhos no chão. Ao
meu redor tudo fica embaçado e me sinto tonta... Eu me dou conta de que perdi.
— Não está chorando,
está?
Vim para Petrópolis com o
sonho de ser uma bailarina profissional, de voar no palco com liberdade. Mas
tudo o que consegui foi um contrato por tempo determinado, por um período de
seis meses, pois a outra professora que dava aula para as crianças estava de
licença de maternidade. Então minha amiga veio com essa incrível notícia de que
estavam fazendo testes a procura de novos talentos, e achei que esta seria a
minha oportunidade, que a minha hora finalmente havia chegado. Mas...
— Oh, meu Deus, o que
houve? — Roberto sai do boxe; me vê chorando. Eu me sinto uma ridícula.
É claro que podia dar
errado, mas eu criara expectativas demais para isso. Como se em nenhum momento
eu pensasse em perder... Queria dizer que ainda não acabou, que tenho a vida
toda pela frente, mas sei muito bem como a vida é. Quando o contrato terminar,
voltarei para casa e terei de deixar a dança de lado. Nunca mais terei tempo
para balé novamente. A vida seguirá em frente. E eu terei de seguir com ela.
— Ei, calma, está tudo
bem — diz Roberto, olhando para mim com o semblante horrorizado, com a mínima
ideia do que fazer para me acalmar. Então eu me levanto e o abraço com força,
porque faz muito tempo que não abraço alguém.
Uma mulher entra no
banheiro nesse exato momento, pede desculpas e diz que voltará outra hora, mas
eu nem dou muita importância para isso.
— Você pode me levar para
casa? — pergunto ao sujeito que mal conheço.
— Sim, claro — ele diz,
gentilmente. — Só precisamos esperar meus amigos saírem.
Então ficamos um bom
tempo juntos, sentados no chão frio do banheiro feminino, esperando. E eu conto
a minha história fracassada a ele. Desde o dia em que saí da casa dos meus pais,
com eles dizendo que eu não conseguiria, até o dia em que entrei naquele
banheiro.
— Seria uma história e
tanto se tivesse um final feliz — ele diz.
Concordo com ele.
Minutos depois estamos no
seu carro a caminho de minha casa. Quando chegamos lá, ele me deixa na porta e eu
o convido para entrar.
— Sério que vai convidar
um cara que acabou de conhecer no banheiro feminino a entrar na sua casa? — ele
diz, surpreso.
Eu dou um leve sorriso.
— Verdade. Desculpa.
Entro em casa sozinha,
afinal. E em minha cama me sinto solitária como nunca antes me senti. Foi um
péssimo dia.
Quando eu acordo, seis
meses depois, estou em minha casa em São Paulo. Minha mãe está ao lado da minha
cama, toda sorridente; desço para tomar café da manhã. Eu me arrumo e vou com o
meu pai para o trabalho. Tenho uma mesa só para mim e de bônus uma pilha de
papéis os quais tenho de me dar conta. A melhor parte do meu dia é quando o
estagiário entra em minha sala para deixar o meu jornal. Desde de que conheci
Roberto, não parei mais de ler sua coluna. Esta semana ela está intitulada como
“Um adeus ou um até logo”. O que leio me deixa sem fôlego.
“A seis meses, conheci uma garota no banheiro feminino que se chamava Juliana. Ela tinha o sonho de se tornar uma bailarina profissional. Viajara até Petrópolis para conseguir o que queria. Porém o sonho dela estava longe de se tornar realidade, assim como o meu, que era o de poder publicar os meus livros. Ela acabou desistindo e voltando para casa, por não ter mais condições financeiras para ficar na cidade.Hoje em dia realizar sonhos não é uma tarefa para qualquer um. Ou você tem que ter dinheiro ou tem que ter muita coragem para enfrentar a elite e sair vivo dessa. Eu nasci na periferia e para mim foi tudo muito difícil. Fiquei dois anos estudando para passar, e mesmo depois, tive de vencer diversos preconceitos para chegar até aqui. Durante minha faculdade inteira eu fui julgado. Muitas pessoas achavam que eu não conseguiria terminar. Terminei e passei a trabalhar nessa coluna, onde pude ganhar muita experiência, obrigado. Mas ainda não era o que eu queria. Eu queria escrever romances, e nada mais que isso. Escrevi quatro livros, todos rejeitados pelas editoras, e ainda continuei ouvindo, de meus próprios amigos, que nada daria certo. Mas não desisti. Sabia que eu devia melhorar e que uma hora eu acharia uma história boa para contar.Foi quando resolvi ir para Petrópolis com uns amigos. Naquela tarde entramos em um restaurante e foi quando eu disse a eles “Hoje vou encontrar a história que tanto procuro”. Então Juliana entrou. Ela sentou-se à mesa, ficou encarando sua comida, mas não comeu. Logo eu percebi que havia algo de errado com ela. Quando ela foi para o banheiro, fui movido pelo impulso de segui-la. Eu sabia que havia uma história por trás daqueles olhos tristes que valeria a pena ser contada. E eu estava certo, afinal. Juliana, naquele dia, me deu a inspiração que eu precisava para escrever o meu mais novo livro, o qual tenho o prazer de anunciar que será publicado semana que vem.Eu consegui alcançar o meu sonho, mesmo todos ao meu redor dizendo que eu não iria conseguir. É isso o que devemos fazer. Lutar, lutar e lutar. Algumas vezes cairemos, mas é só nos levantarmos outra vez e continuarmos lutando.Esta é a última vez que escrevo para esta coluna. Agradeço a todos que me deram essa oportunidade, que contribuíram para que eu chegasse até aqui. Talvez essa seja sua última leitura de minha autoria, ou talvez você passe a me acompanhar pelos livros, mas, seja como for, deixo aqui a minha mensagem: corra atrás dos seus sonhos, não importe o tempo que dure, nem quanto custe, um dia você chega lá.”
Subo
vagarosamente as escadas, aproveitando cada passo que dou. A cortina se abre
para mim. Eu passei no teste. A luz invade o local, e vejo o jure que me
aprovou dando um leve aceno com a cabeça, feliz em me ver. Eu passei no teste.
Nem acredito que estou no palco, prestes a dançar para centenas de pessoas, no
mesmo lugar onde fui reprovada anos atrás, achando que nunca mais dançaria
novamente. Eu passei no teste. Levou mais dois anos, mas passei. Não desisti. E
agora posso ver Jacque, minha antiga aluna, torcendo por mim, assim como meus
pais que não acreditavam que isso pudesse se tornar realidade. Venci os
obstáculos, passei por cima do preconceito. Agora estou pronta para voar.
Felipe Ferreira

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