Imersão I - Mecanismo de Defesa e Criança Interior
Vejo a minha criança interior brincando com as memórias e planos com ternura.
Ela tenta constantemente construir algo que acaba a se desabar naquilo que as sustenta.
Ela as segura. Seria fácil tirar das mãos dela, mas não com a implícita que serve de barreira a ser lidada antes de qualquer ação.
"Isso não é seu."
A criança se alerta.
"Você acha?"
"Mais que acho, sei. Larga."
Ela as segura mais forte.
"Larga."
A cada pedido, o abraço aperta mais.
Ela balança a cabeça dizendo não.
"Larga." "Não."
"Larga." "Jamais."
O adulto se irrita, se aproxima.
A criança entra em lágrimas ao pressentir o cenário final.
Ao entender o inevitável, faz-se decidida. Que pelo menos o diga o que precisa.
Ela joga as memórias e planos que brincara no chão. O adulto se faz imóvel, sabendo aquilo que deve ceder.
Os dois se observam.
"Você a disse coisas que nunca chegou a fazer."
"Você não entende."
"Mas você disse."
"Você não entende. Eu não consegui."
"Ela não quis?"
"É mais complicado do que isso." - respondeu o adulto, aproximando-se das memórias.
"Não é. Você sentiu. Você viu. Eu vi. Mesmo que não fosse uma linha reta, você já sabia o caminho pra todas as metas."
"Nem tudo acontece como queremos."
"Mas você a largou. Como você pode a largar?"
"Não era fácil.
Os enigmas que eu tinha pra salvá-la deixaram de ser claros e a cada caminho que eu percorria se mostrava sem saída.
Eu tinha que voltar ao ponto de partida.
Eu me sentia mais cansado e cada vez mais sozinho."
"Você falou em salvá-la."
"Mas eu não sei se a encontraria. Eu a procurei. Eu tentei fazer o que eu podia.
No fim que eu fiz, eu desisti. Pereci lá mesmo."
"Eu não acredito que você não viu."
"O que?"
"Que ela era, também, além dela mesma, os enigmas e os labirintos."

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