Follow Us @soratemplates

Thursday, 11 June 2015

Para aliviar a dor

6/11/2015 0 Comments



Um garoto passa por mim e joga discretamente um papel de bala no chão, apesar de ter uma lixeira a alguns metros de distância, achando que não fará a mínima diferença; passo por um mendigo que me pede esmolas, mas eu não dou, diferente do cara que vem logo atrás de mim, que dá uns trocados a ele e caminha como quem já cumpriu o dever de casa, porém sem querer saber o que acontecerá com ele amanhã. Viro-me a algumas esquinas, desço uma rua grande e larga, e quando estou quase chegando à escola, vejo um homem tropeçar e derrubar várias caixas do outro lado da rua; ele se apressa para pegar todas as caixas do chão e equilibrá-las em sua mão novamente, enquanto várias pessoas passam apressadas por ele e carros buzinam; apenas um único ser chega a tempo para ajudá-lo com a última caixa. Para terminar, chego a escola e me deparo com Marcelo sendo espancado por três valentões no pátio, enquanto um grande público assiste em pé.
Meu coração começa a acelerar. Corro para o ringue.
Quando Marcelo entrou em minha sala, no começo do ano, ele não sabia o que lhe esperava. Marcelo não podia imaginar que os maiores babacas do colégio estariam ali, prestes a tornar a vida dele um inferno. E tudo o que ele teve de fazer para contribuir com isso foi: absolutamente nada. Marcelo foi apenas ele mesmo, como sempre: um garoto quieto, sem amigos, que apenas gostava de ficar na dele. E não havia nenhum problema com isso. Eu, pelo menos, não me importava. Mas havia pessoas que sim.
Marcelo era o primeiro a chegar e o último a sair. Ele chegava bem cedo para garantir o seu lugar preferido: a última carteira, no canto oposto ao da janela. No começo, havia um ar de mistério e isso dava um certo charme a ele: um garoto bonito de poucas palavras. As garotas ficavam doidinhas só de olhar para ele. As primeiras semanas foram uma tortura para mim porque elas não paravam de falar nele e ficavam implorando para eu ir até ele conseguir algumas informações. Eu dizia para elas mesmas tomarem coragem e irem até ele, mas elas nunca o fizeram, com o pretexto de que se ele quisesse falar com elas, ele mesmo falaria. Mas estava na cara que Marcelo era tímido demais para isso. Então, não demorou muito para que O Garoto Gato da Minha Sala logo se tornasse O Garoto Caladão da Minha Sala.
E eu me perguntava, o tempo todo, o porquê de Marcelo ter se tornado um alvo. Era algo que eu não entendia de jeito nenhum, que não entrava na minha cabeça. Só por que ele era quieto? Que mal ele estava fazendo para alguém? Por que se incomodavam tanto com isso? Tudo bem que todos ali estavam sujeitos àqueles garotos babacas, mas parecia que Marcelo era o mais afetado, porque eu sempre via alguém fazendo uma brincadeira de mal gosto com ele ou uma piada sem graça para ofendê-lo ou machucá-lo.
As pessoas o julgavam. Viam aquele garoto isolado no fundo da sala, sempre com blusas de frio, e imaginavam mil coisas. Porém, nunca pensavam em se aproximar dele, em conversar e conhecê-lo. Eu fui a primeira a fazer isso, dois meses depois, quando nossa turma teve de fazer um trabalho em dupla e eu o escolhi como meu parceiro, pois sabia que mais ninguém o faria. E foi a melhor decisão que eu poderia tomar, pois foi aí que vi quem realmente era Marcelo: muito mais que um garoto de poucas palavras, afinal.
Marcelo era muito bom em matemática, acabamos tirando a nota máxima no nosso primeiro trabalho e fizemos muitos outros juntos, onde nossas notas também foram excelentes. Minhas amigas, é claro, ficaram com ciúmes, mas eu não podia deixar de dar atenção àquela nova amizade que estava se formando. Eu estava sentindo que algo de bom sairia de tudo aquilo. Eu passei até a chegar mais cedo à escola para ficar conversando com Marcelo e não demorou muito para eu ver o quanto ele era uma pessoa incrível e o quanto que ele tinha potencial. Ver que Marcelo queria fazer a diferença no mundo, que o seu sonho era fazer Psicologia e Serviço Social e ajudar as pessoas que passavam por problemas na sociedade, foi algo que me surpreendeu de verdade. Ele não queria ser rico ou famoso, só queria fazer a coisa certa, o que é bem raro hoje em dia.
Além de amar matemática, Marcelo gostava também de política e tinha muitas ideias para revolucionar o mundo. Eu ficava impressionada com a maneira que ele tratava cada assunto, como ele tinha uma opinião bem formada sobre tudo e como ele sabia se posicionar e argumentar. Vendo-o quieto ali na dele, eu nunca pude imaginá-lo falando daquele jeito, e foi muito bom ver que aos poucos ele ia se soltando e se abrindo comigo. Eu estava gostando desse Marcelo: o que gostava de desenhar e pintar nos tempos livres; o que gostava de crianças e de fazer coisas boas; o que queria fazer desse mundo um lugar melhor. A cada dia que o conhecia eu me surpreendia com o que ele tinha a oferecer.
Uma ótima coisa que aconteceu ao me aproximar de Marcelo foi que os garotos babacas da minha sala começaram a irritá-lo menos. Só enchiam o saco dele quando eu não estava por perto para defendê-lo, talvez com medo de que eu me descontrolasse novamente e gritasse com eles. Marcelo não gostou muito quando isso aconteceu:
— Serio, Sarah — disse ele — não precisa fazer isso.
— Não vou deixar ninguém mexer com meu amigo aqui.
 Acho que foi o momento em que selamos a nossa amizade. Eu olhei para aqueles olhos doces e para aquele sorriso tranquilo... E enxerguei tudo o que ninguém mais podia enxergar. Não se podia ver tudo aquilo vendo-o de longe, criando conceitos antecipados, apenas com base na sua aparência, ou na maneira de se vestir ou qualquer outro fator externo, como minhas amigas faziam. Eu queria que todos passassem a vê-lo da mesma forma que eu, mas sempre colocavam um obstáculo invisível na frente. Minhas amigas até o cumprimentavam por educação, mas não queriam conhecê-lo como eu, com medo do que encontrariam.
Mas um dia tudo mudou. Eu estava começando a ter dúvidas sobre o que sentia por Marcelo, começando a achar que eu estava apaixonada. Não sei se foi a maneira com que eu olhava para ele ou por que eu passei a ficar muito tempo do seu lado, mas minhas amigas começaram a desconfiar se tudo aquilo era apenas amizade. Eu não sabia. Só não queria acreditar em uma coisa que não fosse verdade, porque Marcelo até então só tinha demonstrado que era o meu amigo, e nada a mais. E eu não estava a fim de destruir aquilo que havia acabado de começar, porém, minha amiga Ellen insistia:
— Fala sério, você tem uma pequena queda por ele — ela disse.
E bem nessa hora, em que Ellen falava, Gustavo passou. E em questão de segundos já estava todo mundo comentando que eu estava a fim do Marcelo, porque era assim que funcionava quando você abria a boca. Eu não soube onde enfiar a cara. Marcelo, pelo menos, pareceu bem tranquilo; continuou na dele, como sempre, e talvez isso seja o que mais tenha irritado os garotos babacas da minha sala.
— Ah, qual é, cara! — Gustavo, talvez o babaca mais admirável do colégio, estava ali, de pé em frente à mesa de Marcelo. — Tem uma gata ali dizendo que é a fim de você e você não vai fazer nada?
Foi a primeira vez que Marcelo falou em voz alta:
— Somos apenas amigos.
Gustavo começou a rir, chamando os colegas para rirem com ele. Eu o achava um completo idiota. Mas havia gente que gostava.
— Pode ser a sua última chance de pegar uma garota como essa, cara.
— Eu não quero pegar uma garota como essa, cara — Marcelo disse, totalmente sério e demonstrando firmeza na voz.
Eu fiquei um pouco chateada, confesso. Mas, como ele mesmo disse, éramos apenas amigos, e pelo visto seria para sempre assim.
Já Gustavo, estava irritado, isso dava para ver nos seus olhos. Mas ele continuava rindo, a sala o ajudando. Todos atentos, curiosos com o que iria acontecer. Alguns torciam por uma briga. Eu estava prestes a me levantar e gritar com eles.
— Qual é, cara! Você por acaso é gay?
Dito isso, começou uma grande provocação por parte da sala. Os mais atentados pediam para Marcelo revidar; ele tinha de revidar, não podia deixar aquilo barato! Então Marcelo se levantou e a sala prendeu a respiração. Inclusive eu, pois não esperava que ele fosse se levantar. O garoto ficou olho a olho com Gustavo e disse, com a maior tranquilidade:
— Sim, eu sou gay. Algum problema?
A sala continuou quieta.
Gustavo começou a rir, mas logo parou.
— Não... É sério?
Mas Marcelo não precisou dizer mais nada. Era a verdade. Não havia nenhuma possibilidade de ele ficar comigo, porque ele era gay. Marcelo era Gay... Um gay, e não era uma piada. Gustavo ficou ali por alguns segundos, olhando para ele, querendo lidar com aquilo, mas não conseguiu. Já era o bastante. Sentiu repulsa. Saiu de perto, sentou-se em seu lugar, afastado de Marcelo, e mais nada foi dito por ninguém até o soar do último sinal, quando todos nós fomos para as nossas casas.
Eu queria acreditar que nada mudaria, que tudo continuaria como antes, que Marcelo e eu continuaríamos amigos... Entretanto, eu não soube como lidar com aquilo. Foi como se de uma hora para outra eu tivesse me esquecido de quem Marcelo realmente fosse. De repente, fomos nos distanciando um do outro até pararmos de nos falar, enquanto os dias de Marcelo ficavam cada vez mais difíceis. Se antes alguém pelo menos falava um bom dia, ou um oi, agora não faziam nem o esforço de olharem para ele. Até os professores começaram a tratá-lo diferente
Os garotos voltaram com suas brincadeiras infantis e a cada dia conseguiam piorar. Eu, dessa vez, não fiz nada para impedir; via as frequentes faltas de Marcelo, via o quanto que ele emagrecia, via-o cada vez mais triste e distante, e não fazia nada. E os garotos não paravam, iam aumentando o nível das brincadeiras como se nada fosse o bastante. Frequentemente se ouvia a palavra bichinha ou marica. Gustavo, especialmente, gostava muito do termo bichinha frienta. Mas Marcelo não arrumava confusão. Ele continuava na sua, e isso era o que eu mais admirava nele, pois em seu lugar eu já teria explodido.
Mas ninguém aguenta tanto por muito tempo.
Naquele dia, em especial, Marcelo havia chegado um pouco atrasado, estava correndo para conseguir o seu lugar habitual e, sem querer, acabou esbarrando em um garoto da nossa sala que, por sua infelicidade, era o babaca. Quando Gustavo viu que era Marcelo, ficou furioso e jogou-o no chão, dizendo para que não encostasse nele outra vez. Marcelo se levantou rapidamente, disse que havia sido sem querer, mas Gustavo empurrou-o outra vez para o chão, xingando-o de marica. E foi a gota. Disseram que Marcelo estava ganhando a briga e por isso que os dois amigos de Gustavo vieram ajudá-lo. Foi quando eu cheguei... Marcelo no chão, os três covardes dando chutes e socos em seu estômago, o rosto de Marcelo já todo sanguentado, e o público assistindo de pé, só faltando aplaudir. Uns poucos falavam indignados para pararem, mas ninguém agia.
Por isso, assim que vejo a cena, logo corro para separá-los, porém, minha amiga me puxa pelo braço.
— O que vai fazer? — Ellen diz, indignada.
— Ellen! Eu preciso ajudá-lo. Me solta!
— Ajudar quem, Sarah? Ajudar um gay? Ele está pagando pelo que merece, e não há nada o que possamos fazer por isso. Você sabe muito bem! Não podemos salvá-lo.
— O quê?!
Não acredito no que estou ouvindo. Por isso paro e encaro os olhos de Ellen. Eu não havia percebido que ela se tornara como muitos deles... cegos pela sua religiosidade, sem enxergar aquilo que realmente importa.
Ellen e eu crescemos na mesma igreja, aprendemos as mesmas coisas juntas, tivemos quase as mesmas experiências, mas as nossas opiniões se diferiram ao longo do tempo. Eu comecei a enxergar a igreja de uma maneira que ela não enxergava. Comecei a duvidar da igreja e acreditar mais no evangelho. Eu achava que poderia fazer Ellen ver da mesma forma que eu; tivemos várias conversas sobre isso, eu pensava que os olhos dela estavam se abrindo, mas pelo visto eu estava enganada.
— Ellen... O que importa que ele é gay? Você por acaso acha mesmo que é superior a ele? Jesus não o trataria diferente! Jesus andava com todo o tipo de pessoas, exceto, sabe com quem? Com os hipócritas! E é exatamente isso o que você é.
— No que você está falando Sarah? — Ellen larga o meu braço, — Não foi você que se tornou a amiga dele para depois largá-lo? — vira as costas e vai embora.
É o fim do espetáculo. Enquanto chega o inspetor, o zelador, o diretor e a turma toda para separar a briga, fico pensando o quanto que Ellen está certa. Eu não sou melhor que ela. Fiz a pior coisa que uma amiga poderia fazer. Eu sou pior do que aqueles que o espancaram. Fui a que a abandonei quando ele mais precisava.
Eu me sinto mal. Sinto que tinha de ter conversado com Marcelo, ter dito a ele que eu não ligava por ele ser gay. Sinto que tinha de ter ido até lá e ter sido sua amiga, ter demonstrado amor, ter feito a diferença. Ter dito a ele que ele podia contar com alguém. Mas em vez disso, Marcelo apanhou em frente à escola e agora estava na diretoria sem o apoio de ninguém. Os agressores contariam sua versão e acreditariam neles.
Fico muito triste quando não vejo Marcelo nos próximos dias de aula. E ao mesmo tempo irritada por ninguém parecer se importar com sua falta. Ninguém toca no assunto, ninguém pergunta mais sobre o garoto calado que vivia com frio. Na verdade, a sala parece bem mais leve sem ele, como se ter um gay na sala significasse ter de carregar um peso enorme.
Sentada em minha carteira, as lágrimas escorrendo no silêncio, espero os dias passarem vagarosamente. Decido que, quando Marcelo voltar, a primeira coisa que farei é pedir desculpas; pedirei perdão por ter sido tão idiota. Eu serei sua amiga e darei todo o apoio que ele precisar, direi a ele que seus sonhos serão realizados e que ele conseguirá fazer a diferença no mundo. Estarei com ele para o que der e o vier, e não me importarei mais com o que dirão de mim.
Mas esse dia não chega. Duas semanas depois da briga, Marcelo comete suicídio em uma forca malfeita, em sua casa. Eu não poderei mais pedir desculpas, não poderei mais ser sua amiga, não poderei mais demonstrar o amor que deveria mostrar. Porque Marcelo, agora, está morto.
Confesso que nunca derramei tantas lágrimas na vida. A culpa que sinto é grande demais para ser medida. Eu o matei. Eu poderia ter evitado tudo isso. Eu poderia ter salvado sua vida, dizendo que ele não estava sozinho no mundo. Mas agora é tarde demais para qualquer coisa. Eu o matei. Eu o matei...
Marcelo. Quem é Marcelo? Não é ninguém. Agora, apenas mais um que se foi... não será lembrado por muito tempo... logo será esquecido como tantos outros que morrem todos os dias. Até mesmo depois de sua morte, continuarão com seus julgamentos. Mas o que sabem de sua vida? O que é que sabem sobre sua história?
Marcelo perdeu a mãe quando ainda era uma criança; ele cresceu com o pai, que o considerava uma aberração, xingava-o e o batia frequentemente; durante toda a sua adolescência Marcelo teve problemas com o bullying, e somados aos problemas de casa, a única forma que Marcelo encontrou para aliviar toda a dor foi causando mais dor, cortando os pulsos todos os dias no seu próprio banheiro, o que o levava a sempre ter de vestir blusas para esconder as cicatrizes. Quando se cortar não estava mais resolvendo os seus problemas, cansado de ser discriminado e não querendo mais conviver com isso, morrer para ele foi a sua última opção. Essa é a história de Marcelo. A história que ninguém vai conhecer ou contar... Ninguém se lembrará do garoto que tinha ótimas ideias ou do garoto que brilhava em matemática, ninguém se lembrará do garoto que pintava e que acreditava em fazer desse um mundo melhor. Tudo o que se lembrarão será de um gay que entrou em uma briga e acabou se matando. 


Felipe Ferreira

Enquanto isso no banheiro feminino

6/11/2015 0 Comments

Desço as escadas correndo, segurando as lágrimas. A porta se fecha atrás de mim em um som abafado. Eu não passei no teste. Ainda vejo o júri olhando nos meus olhos e depois para minha concorrente, e por fim a escolhendo em vez de mim. Eu não passei no teste. Ela tinha muito mais corpo que eu, era muito mais bonita, os seus movimentos muito mais delicados do que os meus... Eu não passei no teste. Eu pulei o mais alto que pude, rodopiei no ar o máximo que conseguia, e caí nas pontas dos pés como desde pequena aprendi a fazer. Mas, ainda assim, eu não passei no teste. Não foi o suficiente. Cheguei até aqui para nada.
— Você consegue, tia Ju! — foi o que Jacque me disse, a garotinha mais linda da minha turma. Ela olhara para os seus colegas de classe, perguntando se eles não concordavam com ela também. E todos concordaram, com um aceno de cabeça: — É, você consegue, tia Ju!
Nunca havia me sentido tão feliz...  Mas agora, o que direi aos meus alunos? Como poderei entrar naquela sala outra vez, sabendo que eu os decepcionei?
Começo a andar pelas ruas de Petrópolis, sob o céu nebuloso que se forma para mim, a caminho do restaurante em que almoço sempre que termino de dar aula. O prato que peço fica em minha frente, mas eu não toco nele, porque, apesar de estar muitas horas sem comer, acabo de perceber de que não estou com a mínima fome. Então vou ao toalhete lavar o rosto, antes que eu comece a chorar. Olho para o espelho e uma garota de cabelos ruivos me encara, e seus olhos me dizem que não há mais jeito, que sou uma fracassada na vida e que não há nada que eu possa fazer para mudar isso.
Lembro-me das inúmeras cartas de meus pais amontoadas no chão da sala, pedindo para que eu volte para casa... Eles sempre disseram que isso era bobagem. O pior de tudo é ter de concordar com eles agora.
— Ah, me desculpe.
Olho para o lado de onde vem a voz. Um homem de terno acabou de entrar no banheiro. Ele fica parado na porta, olhando para mim, como se não esperasse me encontrar.
— Aqui é o banheiro feminino — eu digo.
— É, eu sei. — ele concorda rapidamente, o que acho muito estranho. — Desculpa, achei que não teria ninguém aqui, não vi você entrando... é que... eu só queria me esconder.
Eu passo a manga da blusa no rosto, para enxugar minhas lágrimas.
— E achou que o banheiro feminino seria o lugar ideal — deduzo.
— Exatamente — ele sorri. — Não sei por que, mas acho que meus amigos não me procurarão aqui... Será que eu posso...? — ele aponta para um dos boxes.
— Ah, claro — eu digo, enquanto ele entra em um deles e fecha a porta. — Eu já estou de saída.
— Tudo bem. Só acho que antes deveria arrumar o seu rosto. Está todo borrado de maquiagem.
Então olho-me no espelho outra vez.
— Ah, droga! Obrigada.
Por alguns segundos tudo fica quieto, enquanto começo a tirar toda maquiagem do meu rosto. Então o silêncio de repente é quebrado quando ele pergunta o meu nome. Não faço nada além de rir.
— O que foi? — ele diz.
— Você não entrou aqui só para saber o meu nome, não é? — pergunto, porque acho que essa seria uma história bem mais plausível.
— Por que acha isso?
— Porque é estranho.
— Então não vai me dizer o seu nome? — ele insiste.
Percebo que não tenho nada a perder se disser o meu nome a ele, então:
— Juliana.
— Muito prazer, Juliana. Sou Roberto. Não foi tão difícil assim, foi?
— Não... — digo, sorrindo.
Terminando de limpar o meu rosto, descubro o quanto que é estranho estar no banheiro sabendo que há um homem (o qual você nunca viu na vida) com você lá.
— Mas então... Por que você está aqui mesmo? — Pergunto, porque o silêncio é muito constrangedor.
— Meus amigos... Eles não levam a sério o que eu faço.
— E o que você faz?
— Sou escritor. Escrevo em uma coluna do Jornal Estadão.
— Nossa, que bacana.
— É, só que não é o que quero. Nem ao menos meus amigos leem minha coluna! Eu quero ser um escritor reconhecido, sabe... Na verdade, eu moro em São Paulo, vim para cá a procura de uma história... Eu estava falando com eles sobre isso quando começaram a fazer várias piadinhas, como “nem só da escrita vive o homem”. Tipo, o que tem de errado de eu querer apenas fazer isso da vida? O que há de errado se eu acreditar que posso realizar esse sonho? Só porque eu fracassei umas três ou quatro vezes não quer dizer que eu não vá conseguir... Mas parece que ninguém entende.
E quando menos espero, lá estou eu chorando novamente.
— Juliana?
Só que dessa vez é para valer. Lágrimas grossas escorrem pelo meu roso e eu fico de joelhos no chão. Ao meu redor tudo fica embaçado e me sinto tonta... Eu me dou conta de que perdi.
— Não está chorando, está?
Vim para Petrópolis com o sonho de ser uma bailarina profissional, de voar no palco com liberdade. Mas tudo o que consegui foi um contrato por tempo determinado, por um período de seis meses, pois a outra professora que dava aula para as crianças estava de licença de maternidade. Então minha amiga veio com essa incrível notícia de que estavam fazendo testes a procura de novos talentos, e achei que esta seria a minha oportunidade, que a minha hora finalmente havia chegado. Mas...
— Oh, meu Deus, o que houve? — Roberto sai do boxe; me vê chorando. Eu me sinto uma ridícula.
É claro que podia dar errado, mas eu criara expectativas demais para isso. Como se em nenhum momento eu pensasse em perder... Queria dizer que ainda não acabou, que tenho a vida toda pela frente, mas sei muito bem como a vida é. Quando o contrato terminar, voltarei para casa e terei de deixar a dança de lado. Nunca mais terei tempo para balé novamente. A vida seguirá em frente. E eu terei de seguir com ela.
— Ei, calma, está tudo bem — diz Roberto, olhando para mim com o semblante horrorizado, com a mínima ideia do que fazer para me acalmar. Então eu me levanto e o abraço com força, porque faz muito tempo que não abraço alguém.
Uma mulher entra no banheiro nesse exato momento, pede desculpas e diz que voltará outra hora, mas eu nem dou muita importância para isso.
— Você pode me levar para casa? — pergunto ao sujeito que mal conheço.
— Sim, claro — ele diz, gentilmente. — Só precisamos esperar meus amigos saírem.
Então ficamos um bom tempo juntos, sentados no chão frio do banheiro feminino, esperando. E eu conto a minha história fracassada a ele. Desde o dia em que saí da casa dos meus pais, com eles dizendo que eu não conseguiria, até o dia em que entrei naquele banheiro.
— Seria uma história e tanto se tivesse um final feliz — ele diz.
Concordo com ele.
Minutos depois estamos no seu carro a caminho de minha casa. Quando chegamos lá, ele me deixa na porta e eu o convido para entrar.
— Sério que vai convidar um cara que acabou de conhecer no banheiro feminino a entrar na sua casa? — ele diz, surpreso.
Eu dou um leve sorriso.
— Verdade. Desculpa.
Entro em casa sozinha, afinal. E em minha cama me sinto solitária como nunca antes me senti. Foi um péssimo dia.

Quando eu acordo, seis meses depois, estou em minha casa em São Paulo. Minha mãe está ao lado da minha cama, toda sorridente; desço para tomar café da manhã. Eu me arrumo e vou com o meu pai para o trabalho. Tenho uma mesa só para mim e de bônus uma pilha de papéis os quais tenho de me dar conta. A melhor parte do meu dia é quando o estagiário entra em minha sala para deixar o meu jornal. Desde de que conheci Roberto, não parei mais de ler sua coluna. Esta semana ela está intitulada como “Um adeus ou um até logo”. O que leio me deixa sem fôlego.

“A seis meses, conheci uma garota no banheiro feminino que se chamava Juliana. Ela tinha o sonho de se tornar uma bailarina profissional. Viajara até Petrópolis para conseguir o que queria. Porém o sonho dela estava longe de se tornar realidade, assim como o meu, que era o de poder publicar os meus livros. Ela acabou desistindo e voltando para casa, por não ter mais condições financeiras para ficar na cidade.
Hoje em dia realizar sonhos não é uma tarefa para qualquer um. Ou você tem que ter dinheiro ou tem que ter muita coragem para enfrentar a elite e sair vivo dessa. Eu nasci na periferia e para mim foi tudo muito difícil. Fiquei dois anos estudando para passar, e mesmo depois, tive de vencer diversos preconceitos para chegar até aqui. Durante minha faculdade inteira eu fui julgado. Muitas pessoas achavam que eu não conseguiria terminar. Terminei e passei a trabalhar nessa coluna, onde pude ganhar muita experiência, obrigado. Mas ainda não era o que eu queria. Eu queria escrever romances, e nada mais que isso. Escrevi quatro livros, todos rejeitados pelas editoras, e ainda continuei ouvindo, de meus próprios amigos, que nada daria certo. Mas não desisti. Sabia que eu devia melhorar e que uma hora eu acharia uma história boa para contar.
Foi quando resolvi ir para Petrópolis com uns amigos. Naquela tarde entramos em um restaurante e foi quando eu disse a eles “Hoje vou encontrar a história que tanto procuro”. Então Juliana entrou. Ela sentou-se à mesa, ficou encarando sua comida, mas não comeu. Logo eu percebi que havia algo de errado com ela. Quando ela foi para o banheiro, fui movido pelo impulso de segui-la. Eu sabia que havia uma história por trás daqueles olhos tristes que valeria a pena ser contada. E eu estava certo, afinal. Juliana, naquele dia, me deu a inspiração que eu precisava para escrever o meu mais novo livro, o qual tenho o prazer de anunciar que será publicado semana que vem.
Eu consegui alcançar o meu sonho, mesmo todos ao meu redor dizendo que eu não iria conseguir. É isso o que devemos fazer. Lutar, lutar e lutar. Algumas vezes cairemos, mas é só nos levantarmos outra vez e continuarmos lutando.
Esta é a última vez que escrevo para esta coluna. Agradeço a todos que me deram essa oportunidade, que contribuíram para que eu chegasse até aqui. Talvez essa seja sua última leitura de minha autoria, ou talvez você passe a me acompanhar pelos livros, mas, seja como for, deixo aqui a minha mensagem: corra atrás dos seus sonhos, não importe o tempo que dure, nem quanto custe, um dia você chega lá.”

Subo vagarosamente as escadas, aproveitando cada passo que dou. A cortina se abre para mim. Eu passei no teste. A luz invade o local, e vejo o jure que me aprovou dando um leve aceno com a cabeça, feliz em me ver. Eu passei no teste. Nem acredito que estou no palco, prestes a dançar para centenas de pessoas, no mesmo lugar onde fui reprovada anos atrás, achando que nunca mais dançaria novamente. Eu passei no teste. Levou mais dois anos, mas passei. Não desisti. E agora posso ver Jacque, minha antiga aluna, torcendo por mim, assim como meus pais que não acreditavam que isso pudesse se tornar realidade. Venci os obstáculos, passei por cima do preconceito. Agora estou pronta para voar.

Felipe Ferreira

Aline - Sentimentos

6/11/2015 0 Comments

O seu longo cabelo negro dançava conforme o ritmo do vento. Os olhos dela brilhavam, e com isso não era preciso se dizer mais nada, pois tudo o que ela sentia podia-se ver através daquele acontecimento. Os raios do sol davam ainda mais claridade a sua pele branca e macia, o suor que escorria pelo seu rosto e o cansaço que a rodeava não impossibilitava os seus pés de correrem ainda mais velozes. As batidas do seu coração, a velocidade com que respirava, tudo isso era porque não queria mais ter que sofrer.
Aline amava e não amava. Amava porque, toda vez que se aproximava dele o seu coração batia mais forte, um grande sentimento a possuía e lhe dava uma imensa vontade de chorar. E não amava porque, assim que o seu coração começava a bater mais forte e assim que as lágrimas começavam a implorar para sair, ela imediatamente se afastava e nunca conseguia chegar perto o suficiente dele, do seu amor.
Ela tinha medo. Medo de se aproximar e muito mais medo de perdê-lo para sempre. Cansou muito mais de procurar coragem do que de correr, e nunca achara, e talvez nunca achasse. Realmente, coragem é coisa rara, principalmente se tratando de relacionamentos. Ela queria poder chegar mais perto e poder dizer àquele garoto moreno tudo o que tinha que ser dito por ela e por mais ninguém. Contudo, a verdade era que ela podia fazer aquilo. Sim, por que não? Ah, lhe faltava coragem, mas quem havia lhe dito que é preciso se ter coragem para poder falar com o amor de sua vida? Sendo assim nunca que seus pais teriam se casado e ela sequer teria nascido, refletiu.
O garoto não a ignorava, mas isso não entrava na cabeça da Aline. Ela não conseguia compreender que o problema era ela e não ele. Às vezes ele se aproximava com um assunto, mas ela falava pouco e tudo evaporava. E o engraçado era pensar que houve um dia em que os dois falavam muito mais do que apenas um “Oi, como vai”. Quando a garota dos cabelos lindos não era apaixonada por ele, assim era permitido se falar, e ela até se atrevera a dizer que gostava muito dele, que ele era divertido... Mas é claro, Aline era ingênua quando disse o que disse, pois agora que estava apaixonada por ele, não diria isso nem que depois viesse a palavra “amigo”.
Se ela se aproximasse dele, nada resolveria, seria a mesma coisa de não ter feito algo; ele a ignorava constantemente, a achava uma tremenda chata e nunca em sua vida chegaria o momento que ele diria eu te amo a ela. Eram essas mentiras que ficavam rodeando os pensamentos de Aline. E por isso ela corria, corria sem parar e sem olhar para trás, o suor já se confundindo com as lágrimas que resolveram, de uma hora para a outra, cair. E ela, indo no embalo das lágrimas, também foi para o chão. Ralou-se, rolou-se e gritou. Ou, primeiro gritou, depois rolou e talvez, alguns segundos depois, já estivesse toda ralada... Ou enrolada. Sim, enrolada, pois o cobertor a envolvia e ela não tinha nenhum arranhão em seu corpo, dando a ideia de que tudo aquilo fora ilusão. Tirou o cobertor que cobria a sua face e viu o teto do seu quarto. Aquilo parecia um absurdo, mas nenhum sonho que vem à nossa mente é à toa, pensou.
A imagem do garoto moreno, cabelo crespo, óculos na face, veio à sua mente. Era verdade que não era um garoto bonito, mas isso nunca iria mudar o que ela sentia por ele, não importa o que os outros falassem. Era domingo e estava frio. Talvez ele nem fosse à igreja, mas qual diferença que iria fazer mesmo? Talvez ela nem o cumprimentasse e nem ficasse muito tempo com os olhos em sua direção; não podia deixar que desconfiasse de algo, sendo assim o ignoraria como sempre, e ela outra vez pensaria que o culpado era ele. Este que fosse falar com ela, era sempre assim que Aline raciocinava. E iria ficar assim até... Pois bem, ela não queria mais pensar nisso, já estava cansada e enjoada. O que tivesse que ser, seria, enfim.
Aline nunca contara a ninguém sobre o que sentia, nem mesmo para Deus – mas é óbvio que ele já sabia. Todavia, ela guardava esse segredo de todos, às vezes até dela mesma, quando então se confundia toda com os seus sentimentos. Mas a verdade nunca iria ser escondida e uma hora deveria vir à tona: Ela o amava, amava como se ama o primeiro e único amor de sua vida.
E quando o tempo passou ligeiro, sem ser visto, Aline já estava pronta em frente de casa, esperando pela mãe, pela irmã e pelo pai que dirigiria. Instantes depois teriam eles entrado no carro, todos felizes, Aline pensativa. Contudo, e se o pai ou a mãe perguntassem o porquê dela estar assim, pensativa? E se a própria irmã notasse algo diferente nela? Não, não poderiam descobrir a verdade, por isso Aline fingia, e fingia extraordinariamente bem. Assim, nem mesmo as suas verdadeiras amigas poderiam descobrir o seu segredo.
E lá estava ela, mais que bem-arrumada. Porém, ele não notaria, notaria? Será que perceberia que ela estava linda daquele jeito, excepcionalmente, para ele? Seja como for, estava ali com o intuito de prestar um culto, e não para ter um encontro.
– Oi – Era essa simples palavra que deveria fazer Aline congelar. Mas ela não poderia demonstrar nenhuma expressão em seu rosto, então simplesmente o cumprimentou, usando a mesma palavra que ele usou. E foi como o domingo anterior. E talvez os próximos domingos fossem assim também, desta mesma forma. Nunca mudariam a menos que alguém tomasse uma atitude.
O culto iria acabar, eles não se falariam mais, pelo menos não como um dia se falaram. Isso porque ambos tinham medo. Ambos tinham medo de se aproximar, e ambos tinham muito mais medo de perder o outro para sempre. Realmente, tudo seria diferente se um soubesse dos sentimentos do outro... Nunca saberiam, é claro, pois eles escondiam essa verdade para eles mesmos, no mais íntimo de seus corações.


Felipe Ferreira

O amor suporta

6/11/2015 0 Comments



Estava um sol maravilhoso lá fora, o dia tinha tudo para ser perfeito. Dayanne levantou-se da cama com uma boa sensação. Abriu a cortina e, depois de ver como o dia estava realmente extraordinário, animou-se e foi se arrumar. Estava alegre como nunca esteve antes. Após vestir seu vestido favorito, saiu pela porta de casa como se fosse encontrar alguém. E Dayanne encantava a todos a sua volta. Desde que saiu de casa, sempre havia alguém que a olhava. Ninguém parava de olhá-la, admirando a sua beleza, afinal, era realmente encantadora. Ela parecia estar decidida no que iria fazer, ninguém sabia o que acontecia para que ela estivesse assim tão alegre...
 Após um longo período de caminhada, Dayanne finalmente chega ao local desejado. Era uma linda praça, talvez a praça mais bela do bairro, onde continha enormes árvores e diversas flores perfumadas que Dayanne adorava, pois o aroma daquelas flores fazia com que ela se sentisse, definitivamente, bem. Dayanne se aproximou de um banco onde havia um rapaz sentado, olhando para as nuvens, talvez pensando na vida e como seriam seus próximos minutos. O rapaz estava bem arrumado e parecia estar esperando alguém. Então, percebendo a presença de Dayanne ali, levantou-se, olhou nos olhos dela e, segurando a sua mão, disse-lhe:
– Como você está linda, sente–se.
 Sim, parecia que ele estava a esperando. Dayanne se sentou ao lado de Daniel e ficaram ali conversando… E conversando… Talvez fosse o primeiro encontro deles… Ou talvez não. E ficaram ali até o pôr do sol, o momento em que eles se beijaram pela primeira vez, ou segunda, quem sabe? Poderia até ser o último beijo deles. “Eu te amo”. “Eu também te amo”. Os dois ficaram ali até escurecer, o que não demorou muito, e depois Daniel foi levar Dayanne para casa. Foi neste momento que algo aconteceu… Algo que, por incrível que pareça, não se podia enxergar. O que se dava para perceber, naquele momento, era somente pequenas lágrimas que caiam dos olhos de Dayanne. Não sei se eu estou errado, não sei… Mas aquilo tudo parecia muito mais com uma despedida, como se eles nunca mais fossem se olhar outra vez. 
Dayanne se trancou no quarto querendo ficar um pouco sozinha, e depois que se jogou na cama, não parou de chorar nem por um minuto. Sua mãe, achando muito estranho seu comportamento, foi ver o que acontecera. Após ficar batendo alguns minutos na porta, implorando para que a filha a abrisse, finalmente Dayanne rodou a chave, deixando a mãe entrar para que pudessem ter uma conversa. E não apenas uma conversa somente de mãe para filha, mas sim de mulher para mulher.
A mãe perguntara o que acontecera, e Dayanne então desabafou, contando tudo para ela. As últimas palavras que dera para ouvir de Dayanne foram:
– Acabou mãe, nunca mais vou vê–lo.
Então eu estava certo... Mas gostaria que eu estivesse errado, pois vendo os dois juntos na praça naquela tarde, parecia que nada poderia separá-los. O amor deles era forte o suficiente para deter qualquer coisa, forte o suficiente para destruir qualquer barreira. Aquele não era o primeiro encontro deles, pelo contrário, era o último; aquele não era o primeiro beijo deles, mas sim uma lembrança do amor que eles viveram. Depois de mais algum momento de choro, ouvi a mãe lhe perguntar:
– Mas o que realmente fez com que vocês terminassem?
E a filha não demorou muito para responder:
– Ah mamãe… Brigas mamãe, brigas…
– Brigas? Então foi este o motivo? – Sua mãe parecia muito surpresa pela resposta. E Dayanne, deitada no colo da mãe, respondeu:
– Sim, eu e ele estávamos cansados de ficar brigando, mãe.
– Mas vocês não se amavam?
– Sim mãe, era um amor que não tinha igual… E foi exatamente por isso que terminamos, amávamo-nos demais e não podíamos passar dias brigando, doía demais.
– Então foi esta a ideia que vocês tiveram? Acharam que a dor iria sumir se vocês terminassem? – disse a mãe, indignada.
– Bom, pelo menos não iremos brigar mais. 
– Ah filha… Se tudo na vida fossemos desistir de primeira, só porque parece ser difícil, nunca chegaríamos a lugar algum. Nada na vida é fácil minha filha, é claro que os casais brigam. Ou você acha que todos os casais por aí vivem em perfeita união, não brigando nenhuma vez sequer?
– Bom, não sei. Você e meu pai brigavam?
– Ham...! – a mãe deu uma risadinha – Se fosse a questão de briga, eu e seu pai nunca teríamos nos casado.
– Sério? – Dayanne, surpresa…
– Sério, seu pai e eu não parávamos de brigar quando éramos jovens.
– E por que vocês não brigam mais? Como conseguiram parar?
– Ah filha, colocamos Deus na nossa vida, e com ele nós aprendemos a como usar o amor que nós já tínhamos. Então, não vale a pena largar o seu namorado só por causa de vocês estarem brigando. Quando um pensamento destorce o pensamento do outro, isso é normal, não dá para se evitar isso minha filha. Você entende? 
E a filha disse um sim com a cabeça, e parecia estar entendendo mesmo. Logo se levantou, correndo em direção a porta.
– Aonde você vai? – Perguntou sua mãe, com um sorriso no rosto.
– Vou desfazer o que eu nunca deveria ter feito. Vou ir atrás dele e dizer o que o amor é capaz de fazer! – E Dayanne então saiu pela porta naquela noite e foi até o lugar que Daniel morava.
A garota ficou preocupada quando chegou à casa de Daniel e viu que ele não estava, e começou a se perguntar onde ele estaria naquelas horas. Foi aí que ela se lembrou do lugar que eles costumavam ir para ver a lua, então foi até lá se encontrar com ele.
– Dayanne? Como sabia que eu estava aqui? – Daniel perguntou
– Eu sabia que estaria aqui, pois sei que ainda me ama, e que quer ficar comigo.
– Mas não podemos…
– Silêncio! Não diga nada. – Ela chegou o mais perto dele possível – Hoje eu aprendi uma coisa muito importante. Aprendi que com o amor podemos resolver todos os nossos problemas, e se tivermos Deus nas nossas vidas, nunca mais iremos brigar outra vez. É só saber usar o amor, tudo depende dele. Não importa o quanto briguemos, se existe amor entre nós, tudo se resolverá no dia seguinte. O amor move montanhas Daniel… Agora me diga, você me ama?
– Sim, eu te amo.
– Então nossos problemas acabam aqui e agora! Pois eu também te amo. E eu sei o quanto o nosso amor é verdadeiro… Temos que ficar juntos, não importa o que aconteça. Não é só nos momentos de alegria e felicidade, mas também nos momentos de tristeza e os mais difíceis… Você entende? 
– Perfeitamente. Agora, por favor, não diga mais nada… E me beije logo.
E os dois se beijaram, e este foi o primeiro beijo do início de suas vidas.

Felipe Ferreira

Ex-vida

6/11/2015 0 Comments


Uma vida inteira sem sentido... Os cantos das paredes
Parecem mais confortáveis do que braços que abraçam.
O que fiz de minha vida?
Olho todo infinito, vejo ao longe,
E não sei onde me encaixo, qual é meu lugar?
Passo esquinas,
Passo quadras,
Passo flores,
Passo dores,
Não vejo mais amores...
Minha vida se tornou dois paralelos,
Andar pra não ficar parado
Ficar parado para não mais andar...
Olhar e observar não são mais
Coisas comuns!
Pra mim já virou passa tempo,
Virou hobby...
Qual é meu lugar...?
Andando eu olho
Parado observo,
Em ambas as atividades a mesma conclusão,
Olhos centrados em máquinas,
Passos curtos e descuidados
Parece não mais existir função para o pescoço,
Se virar para quê? Né?!
As flores já não importam mais,
As dores, nem sei mais...
As quadras nem conto, pra quê?!
Tenho GPS! Nas esquinas não se veem mais jovens,
Nem tão pouco risos.
Mas ainda sonho em cruzar uma esquina
Fazer com que meus olhos batem com os seus
E que se faça amor,
Que eu encontre meu lugar,
E poder assim dizer:
— Hoje eu tenho um sentido para viver,
Hoje eu tenho um significado!

Samuel M. Pinheiro

Te amar

6/11/2015 0 Comments

Seu sorriso
Porta de Deus
Que olhar, perturbar...
Amar e amar, sem pestanejar

Explanar, sentir
Reproduzir o sonhar
Amar e amar, sem pestanejar

Que pureza, que fineza
Elegância e protuberância
Te olhar e te amar
Amar e amar, sem pestanejar

Riqueza que aflora,
Que se faz, que cresce
Oferece, se despede
E,
Mesmo assim...
Amar e amar sem pestanejar...


Samuel M. Pinheiro